03 dezembro 2006

MANZANA


Verão. Rio de Janeiro. Calor. Muito calor.
Nas noites quentes suavizadas pela brisa fresca que vinha do mar, cheia de perfumes de lugares distantes e histórias por serem contadas, minha mãe nos levava para passear e, invariavelmente, eu acabava brincando na areia fria da praia, imaginando sempre onde ela escondia toda a quentura que a cozinhava durante o dia. O toque macio sob meus pés miúdos me trazia um prazer único. Era algo muito sensual, quase orgástico, embora eu estivesse há uma grande distância dessa consciência, sabia desfrutar aqueles momentos com alegria e ansiava por eles o dia todo.
- Menina, você vai ficar cheia de areia. Volta já aqui! Ô criança desobediente... – gritava uma babá descabelada e ofegante.
E eu corria e brincava. Molhava os pés na espuma das ondas, embora o mar do Rio não fosse marzinho santo, desses de laguna, nem tão afeito a remansos. Vez por outra mandava a onda maior, mais predadora. Daquelas que vem com estrondo, surgindo como um dragão, das profundezas da terra. Uma delas me pegou uma noite e me arrastou mar a dentro. Só me lembro do meu vestidinho rodado, branco de bolas vermelhas, flutuando à minha volta, sobre a água escura, pontilhada de espumas. Tão lindo. Me senti bailarina. Fui agarrada por alguém que me salvou de ir parar na Costa do Marfim boiando no vestido ou pro(fundo) escuro do oceano, nos cabelos da medusa.
Eu tinha pouco mais de cinco anos então, a maior de outras duas meninas. Era esperta, vivaz e tagarela. Numa dessas noites, ao voltar para casa, fui lavar meus pés, ainda brilhantes pelos grãos da areia, que grudavam como brocal. Caí tombo feio. Tombo de banheiro. Dor aguda, cegueira momentânea, um gosto estranho na boca, sensação de vazio. Tudo perdeu a cor. Galo enorme na cabeça.
- Esse galo vai cantar! – alguém brincou, para aliviar.
Na verdade eu não alcançava a gravidade da situação. Só sabia que minha mãe andava triste pelos cantos e preocupada comigo nos dias seguintes. Não sabia ainda, que o que me parecia nada, quase me custaria a vida, poucos meses depois.
Meu pai estava viajando havia muitos dias. Tempo demais. Uma saudade doía em mim mais que o galo. Mais que todo aquele hematoma que me coloriu de tons azuis e amarelos, do peito ao alto da cabeça, assustando todos à minha volta e transformando-me um pouco em Dora Maar – a famosa figura feminina de Picasso com os olhos tortos e cores diversas espalhadas pela face.
Na ausência do meu pai, éramos só mulheres, de vários tamanhos e cores, num pequeno apartamento do Leblon. Gil vinha me fazer companhia. Conhecia-me desde meus primeiros dias. Era vizinho. Foi virando primo. Primo ficou. Um rapazola magrelo e alto, nariz adunco, cabelos escorridos. Riso fácil. Queria me alegrar. Tão amoroso. Me ajeitava sentadinha sobre a carcaça da enceradeira triangular, uma antiga eletrolux sueca, e comigo passeava pela casa, enquanto dava lustro aos tacos caprichosamente encerados por minha mãe. Eu me imaginava viajando por outros países.
- Vamos pra China!! – gritava ele – Agora vamos pra Grécia!!! E corria, zunindo o aparato, que rangia sob meu peso.
- Quero ir pra lua!!! - gritava eu, rindo e indo.
Numa outra aventura mais estranha, Gil capturava cuidadosamente um marimbondo-cavalo, daqueles vermelhos, que zumbem alto e picam muito doído ou uma cigarra bem parruda, que eram muitas no verão carioca; com um longo fio de nylon prendia o inseto à uma caixa de fósforos, deixando que ele voasse agoniado pela sala, balançando a caixa no ar, arrancando-me gargalhadas. E lágrimas. Ele, nos seus dezessete anos, tentava desesperadamente amenizar minhas dores, meus medos e as saudades do meu pai.

Numa manhã quente e muito ensolarada, meu pai chegou de uma longínqua e inimaginável Espanha. Tinha ido passar o Natal com meus avós, que não o viam desde o final da Segunda Guerra. Avós esses que eu nunca conheci. Eram personagens de fotos desfocadas, amareladas pelo tempo, que viviam no meu imaginário, através das histórias que ele me contava sobre suas andanças, que não foram poucas.
Chegou suado, com mais agasalho do que o verão carioca pedia.
Trazia malas, bolsas de couro, caixas e muita saudade. Nunca vou esquecer seu olhar quando me viu transformada num quadro cubista de seu conterrâneo. Disfarçou o quanto pode, acho que pra me apavorar menos.
- Negra, te trouxe coisas. Seus avós e seus tios mandaram presentes pra todas vocês – dizia e beijava-me – Presentes para todas!
Foi abrindo para mim os presentes. Deliciando-se, mais ele do que eu, queria ver minhas reações, queria dar-me toda a Espanha, por não ter podido levar as netas pros avós. Queria me presentear com todas as cores peninsulares.
Foram saindo muitas novidades. Coisas que chegavam de uma Europa um tanto mais sofisticada. Rendas de Valência para minha mãe. Frutinhas de marzipã para minhas irmãs. A sardentinha, dois anos mais nova. Uma espoletinha. E a pequenina gorduchinha, de cabelinhos encaracolados, nem andava ainda. Acho que não deram muita importância para aquilo tudo. Vieram então uma boneca sevilhana linda para cada uma. A minha, com vestido vermelho de cauda, bem cigana, corpo esguio e cabelos negros, enfeitados com uma rosa. Nas mãos delicadas castanholas. Parecia querer dançar. Tinha a certeza que se a pusesse no chão encerado, poderia ouvir seu sapateado. Fiquei encantada. Lindos leques com cenas de alegres dançarinos. Discos das músicas que calavam fundo na alma de meu pai e que ouviríamos por anos a fio. Torrones de amêndoas, cujo sabor especial me perseguiria na longa ausência, numa forte memória degustativa. Enfim, uma alegria tomava conta da casa, depois de alguns dias de apreensão por causa do meu estado. E continuava a farta cornucópia de presentes, acompanhada do sorriso feliz dele. Uma farra.
Até que surgiu ela.
Vermelha e brilhante. Imensa. Quase iluminada. Fiquei olhando para a sua forma cordial. Intrigada. Insegura. Não sabia o que era aquilo. Ou melhor, não tinha certeza. Não queria me arriscar.
- Será que quebra? - perguntei.
- É cheirosa... – completei, investigando – Posso pegar? O que é?
- Uma “manzana” – disse em seu sotaque carregado, pondo a língua sob os dentes para falar o Z com som de três esses.
A palavra era sonora. Meio mágica. “Manzana, manzana...” Mansssana??? Olhei interrogativa pra minha mãe.
- Uma maçã!! Uma maçã como a da Branca de Neve. – disse-me carinhosa.
- Envenenada??? - perguntei, afastando-me.
- Não. – riu ele – Uma maçã encantada.
Aquilo bastou para seduzir-me.
Naquele tempo as maçãs que tínhamos por aqui eram raras, pequenas, de pouco vermelho, duras e muito, muito azedas.
Não havia produção nacional satisfatória. Tínhamos frutas várias, deliciosas, nutritivas. Todas nativas. Goiabas vermelhas e brancas, verdolengas, antes que desse bicho. Mangas de muitos sobrenomes – rosa, espada, coquinho, coração-de-boi. Laranja, limão, banana, melancia, tamarindo, que fazia salivar até a alma. Sirigüela, butiá, jaca visguenta, maracujá. Jabuticaba, mexirica e até o horrível jatobá. Mas maçã, não.
E eu ganhara uma maçã. Não, não! Una manzana.
Era única. Só eu tinha uma maçã de verdade. Tão linda e tão grande. A minha maçã viajara. Atravessara o oceano. Nascera muito longe.
Vinham os vizinhos para vê-la. Meu tesouro.
- É uma maçã rubicunda. – explicava eu a todos, imaginando os mais insólitos significados
para a palavra que acabara de aprender.
Eu não a comia. Eu a degustava com os olhos. Cheirava. Ficava sentada olhando para ela. Eu a desenhava e ia, cuidadosamente, molhando o lápis vermelho na língua com a missão de obter o mesmo brilho no papel. Dormia com ela e sonhava com seu sabor. Gil ficou um tequinho enciumado, pois nada mais me interessava, só queria cuidar dela, lhe dar muito lustro com um paninho. Aposentei até a velha enceradeira.
- Vamos cortar em pedaços e comer? – perguntava meu pai.
- Você pode me dar outra depois? – queria saber.
- Você poderá ir buscá-las lá – me acenava ele novamente com a promessa da viagem pra Espanha.
Foram dias de heróica resistência. Até que capitulei. Não tão contrariada como fazia parecer, por que também havia em mim a curiosidade de saber-lhe o gosto, de conhecê-la também por dentro. Mas para isso teria que perdê-la.
É estranho como a memória guardou uma das primeiras decisões difíceis da minha vida. Uma escolha. A primeira de muitas que faria na vida.
Não foi um momento simples. Houve um ritual. Gil teve que estar presente para ver aquilo. Minhas irmãs foram testemunhas do momento em que minha maçã foi imolada.
Do alto do Corcovado, um Cristo, redentor e curioso, entrava pela janela, querendo saber de tudo também.
Com um pequeno canivete de cabo de osso, meu pai foi partindo. Primeiro ao meio, depois nos quartos e por fim nos oitavos. Ao vê-la assim despedaçada, uma lágrima saltou-me dos olhos e meu pai, atento, filosofou:
- Para sabermos o significado da vida, cabe-nos sofrer às vezes. Temos que perder a forma e a beleza, para adquirimos experiência verdadeira. A beleza da maçã está também no seu gosto e só o definimos, depois de provar – disse-me.
Minha mágoa deu lugar ao entendimento. O gosto de choro na garganta deu lugar ao novo. Pedacinhos de polpa macia, cheios de sumo. Sabor surpresa. Inesquecível. Sabor de primeiro beijo.
Perdi a conta de quantas maçãs já passaram por mim depois desse dia, em vários lugares do mundo. Não me lembro particularmente de nenhuma delas. Gosto de maçãs ainda, mas nenhuma delas encerra em si o mistério, o aprendizado e o encanto daquela primeira.
A vida tem dessas coisas.
E é o que a torna fascinante.

01 dezembro 2006

ALQUIMIA NATALINA

pela Assessoria de Imprensa


O livro “Contos Natalinos”, publicado pela Editora Atlas e cujo lançamento se dará no dia 15 de dezembro, às 19h, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, reúne professores, escritores, roteiristas de cinema, publicidade e televisão.

O livro foi idealizado por Leonardo de Moraes, assessor do governador do Estado de São Paulo Cláudio Lembo e autor do livro “A Caixa de Confeitos & contos sortidos”, publicado pela Ed. Manole na XIX Bienal do Livro. “Esta foi a forma encontrada para reunir 25 ótimos contadores de histórias, que pudessem brindar os leitores com um pouco de seu imaginário, às vésperas do Natal, bem como homenagear os 40 anos de uma instituição séria como o CHESP”, afirma Moraes.

Os direitos autorais do livro serão totalmente revertidos para o Centro dos Hemofílicos do Estado de São Paulo (CHESP). Segundo sua presidente, Maria Cecília Chiocca Magalhães Pinto, “o projeto é de uma delicadeza ímpar, e só vem reafirmar a importância da literatura como um móvel da sociedade, indireta ou diretamente, como no caso desse livro”.

Para Moraes, “em tempos de Internet, escrever não precisa mais ser um trabalho mais tão solitário. Grandes afinidades podem nascer de forma virtual, e tomar corpo em obras consistentes”. No caso de “Contos Natalinos”, alguns dos autores irão se conhecer justamente no dia do lançamento, vindo de diferentes partes do Brasil. “Será a nossa grande comemoração de Natal”, assegura o organizador da obra.

“Essa alquimia é fantástica. Tive o maior prazer em aceitar esse convite”, comenta Solange Castro Neves, autora de telenovelas que trabalhou durante anos na Rede Globo, ao lado de figuras como Ivani Ribeiro e Cassiano Gabus Mendes. “A variedade de enfoques sobre a mesma festa cristã é o grande atrativo deste livro. Falar sobre o Natal foi uma satisfação, e no meu caso, deve ter iluminado meus caminhos”, brinca Cristina Ruiz, escritora e roteirista paulista que também integra a obra e acaba de vencer o “1º Concurso de Talentos ‘Scriptmakers”, organizado pela teledramaturgia de Portugal.

30 novembro 2006

"Contos Natalinos" - CONVITE OFICIAL!!!


Queridos amigos,
o convite oficial!
Bjs e abraços,
Cris Ruiz.

27 novembro 2006

Concurso ScriptMakers (Portugal)

Mais novidades, cada vez mais especiais!

Hoje, 27/11/2006, foi publicado o resultado do 1º Concurso de Talentos da Scriptmakers!


Foi muito díficil encontrar o projecto vencedor do Concurso de Talentos promovido pela Scriptmakers no final do mês de Outubro e no mês de Novembro de 2006. Por isso decidimos atribuir o prémio a dois projectos, um na categoria de telenovela e outro na categoria de série:
"O dom da vida", de Cristina Ruiz, categoria de telenovela
"No meu tempo era diferente", de Rose Miranda, categoria de série televisiva
Que 2007 seja tão positivo quanto este ano de 2006!
Bjos a todos,
Cris Ruiz

23 novembro 2006

!!!LANÇAMENTO NATALINO!!!

Queridos,
neste final de ano, uma saborosa notícia: participo do livro "Contos Natalinos", idealizado por Leonardo de Moraes, com o conto "Aristóteles, o filósofo...".
Espero vocês por lá!


CONTOS NATALINOS – Ed. Atlas
"Vinte e cinco contos de vinte e cinco autores, com suas vinte e cinco diferentes visões
a respeito da maior festa cristã: o
NATAL!!!"
Organizador: Leonardo de Moraes
Lançamento dia 15 de dezembro de 2006 (sexta-feira)
Local: Livraria Cultura – Shopping Villa-Lobos
A partir das 19h

Autores participantes:
Alberto Leôncio
Alexandre Kaup
Alice Betânia Miranda
Amanda Aouad
Antonio Alfredo Matthiesen
Bruno Pessa
Claudine Logrado
Cristina Ruiz
Del Schimmelpfeng
Eduardo Oliva
Fernando Américo
Fernando Watanabe
Gilberto Longo
Jean Cândido
Lelê Teles
Leonardo de Moraes
Luciano Milici
Milton Bernard
Paula Cury
Ricardo Silva
Sandra Villela
Saulo Aride
Solange Castro Neves
Teresa Fazolo
Tiago Feliziani

21 novembro 2006

Aristóteles, um filósofo...

Aristóteles, um filósofo...
por Cristina Ruiz

A relva verdinha e nova tinha uns odores bastante característicos, misturados com o cheiro de terra, que depois da chuva ficava cheinha de brotos, naqueles dias molhados.
Ari achava muito prazeroso caminhar a esmo no grande terreiro do sítio, colhendo sementinhas, mastigando os brotinhos tenros e azedinhos dos trevos de quatro folhas - que invariavelmente tinham apenas três - provando uma ou outra migalha que parecia ser interessante, observando de canto de olho o magnífico pôr-do-sol, nas insinuantes montanhas da noroeste paulista.
Enquanto andava pra lá e pra cá, ele sentia uma coisa estranha, como uma fome que não passava. Ari não entendia bem o que era saudade, mas sabia que algo lhe faltava, e nessa angústia, ia ciscando, ciscando...

Ari era um peru. Todos sabiam que ele era um peru e na verdade quase ninguém sabia que ele se chamava Ari, só a pequena e loira Sophia, uma graciosa garotinha de seis anos e olhos azuis, que vivia com os pais numa casa pintada de amarelo, atrás da pequena granja.
Desde que vira aquela pequena ave com um defeitinho no pé – faltava um dedinho no pezinho direito de Ari - se apaixonou, chamou-a de Aristóteles (viu o nome num livro do pai e achou lindo) e passou a cuidar dela com muito carinho. Era por essa menininha que seu coração andava apertado. Ou melhor, pela ausência dela.
Os dois eram bons companheiros e viviam se divertindo pelos rincões mágicos do lugar, onde encontravam refúgio, ora na beira do grotão de um regato, ou numa velha caixa d’água abandonada, povoada de seres elementais de um plano paralelo, ora à sombra de uma grande jaqueira ou num paiol antigo, cheio de palhas de milho e galinhas poedeiras que gritavam “tofraco”.

Mas Ari, além de ser um peru e brincar grande parte do dia com a menina Sophia, adorava pensar e analisar seus pensamentos sob vários ângulos. Nos intervalos das brincadeiras, Ari pensava, pensava sobre algumas coisas que o intrigavam. Talvez fosse o paradigma do nome que lhe dera Sophia.
Nada o intrigava mais do que entender o sentido da vida, principalmente a dele.

- Sophia, me assusta um pouco essa época do ano, pois todos os perus gordos vão embora e não voltam – perguntava ele com o olhar longe, balançando nas nuvens.
- Meu pai diz que eles vão embora por causa do Natal – respondia a garotinha prontamente.
- É! Dizem que o Natal é o grande momento da vida de um peru, mas eu preciso descobrir por que. Não acredito que a gente nasce, come, come, come e depois vai pro Natal e não volta mais... – concluía a ave.
- É verdade... – respondia uma Sophia perdida em pensamentos – temos que descobrir.
- Mais eu do que você, pois se algo acontece com alguém no Natal, é com os perus, e não com menininhas loiras de seis anos. - matutava Ari, resmungando para si mesmo.

Mas a vida dele não era só ciscar.
Ari olhava o longe, o além, o mais pra lá de onde a vista alcançava.
Ele cismava também. E quando cismava, filosofava...

- Todos os perus, por natureza, têm o desejo de conhecer sobre tudo? Conhecer deve ser o grande sentido da vida. Será? – e havia um “que” de auto-convencimento inglório nele.
Ari olhava o céu...
- Deve haver algo além daqui. Meu pensamento deve ser uma coisa que não acaba com a morte. Há algo em mim que deverá pulsar pela eternidade. Se nossa essência não permanecer, pra que serve essa vida? O que fazemos aqui? – angustiava-se.
E Ari pensava e pensava. E por mais que pensasse, as respostas não o alcançavam.
Os outros perus andavam pra lá e pra cá, comendo, comendo, comendo. Nem ligavam para o que Ari pensava. Eles, de certo não pensavam. Eles, na verdade, nem sabiam que não pensavam.

- O que é o Natal? Para que existe o Natal? – continuava o pobre peru em suas investigações.


* * *

Na nuvem de poeira que se levantou no estradão, ele viu surgir a caminhonete de Pedro Hernandez, fazendo um barulhão com seu motor diesel fumacento. De repente, de dentro da caminhonete desceu Sophia, com os cabelos esvoaçando soltos, o vestidinho que levantava quando ela corria. E ela corria e corria. Corria para ele.
- Ari! Ari!! Aristóteles??? - ofegante – Eu cheguei... eu voltei....

Ela sabia que ele estava sorrindo, embora ele sentisse que seu sorriso não era dos mais abertos. Ele bateu as asas, abriu seu leque e fez o “glu-glu” mais espalhafatoso que conseguiu. Estava feliz... Sophia voltara.
Ela o abraçou e beijou rapidamente e sentou-se ao seu lado, ofegante - tinha pressa - tirando de dentro do vestido um papel dobrado. Ele observava, atento. Ela foi abrindo o papel enquanto explicava.
- Tava lá na casa da ”vó” Lolita... aí, olhando uma revista... achei essa foto... e é o Natal... minha mãe e minha “vó” estavam falando sobre isso... é horrível!!!!
Ari arregalou os olhos de peru (ou pensou ter arregalado) e viu a foto de uma linda mesa, toda enfeitada com velas vermelhas, flores, laços, pratos e copos muito chiques e no meio de tudo isso, um imenso peru!!! Um peru peladinho, com botinhas brancas de papel recortado, muito brilhante... e morto!!!
Suas pernas fraquejaram. Seus olhos ficaram turvos e veio uma dor de cabeça imediata. Perus desmaiam? - pensou.
Então era isso o Natal??? Era para isso que os perus se preparavam tanto? Comiam tanto? Que horror!!! Ele estava transtornado. Estava sem chão.
Sophia tinha lágrimas nos olhos.
- Minha mãe tava falando de você pra minha “vó”. – falou triste – ela disse que vai levar você pro Natal.
- Eu???? Mas eu sou tão magrinho!!! Sou tão novinho!!! Sou manco, ó!!! – mostrando o pezinho defeituoso. Nem consegui aprender tudo o que quero ainda. – gritou o pobre peru tomado pelo pânico das evidências - Ai, meu Deus!! (será que existe um deus-peru?) Não quero, Sophia!!! Não quero ficar peladinho na mesa!!!!
- Eu também não quero!!!. Não vou deixar!! – falou a menina, assustada com a possibilidade.
Ari caminhou um pouco e de repente, estoicamente levantou a cabeça e anunciou:
- Tenho que fugir!!! Não vou desperdiçar a minha vida e minhas esperanças, sendo servido como prato principal numa noite em que a maioria das pessoas nem compreende bem o sentido de se estar lá. – gritou furioso
Sophia reagiu rapidamente e pediu que ele tivesse paciência, que à noite ela daria um jeito.
- Fica quieto! A gente dá um jeito. Vai fugir coisa nenhuma!!
Mas ele passou o resto da tarde amuado. A lembrança da foto o agoniava. Dava-lhe engulhos. Perdeu o apetite pelo cisco diurno e ficou sentado embaixo de uma mangueira, muito deprimido. “Seria o peru da foto algum conhecido seu? Um parente?” – a foto o torturava.
- Por que tinham que comer peru no tal do Natal? Por que não comem alface, lingüiça, mortadela, abóboras, laranjas, que são tantas, chester, que ninguém sabe bem que ave é? Por que tem que ser peru? Isso só pode ser coisa de americano sonso, com o seu badalado Dia de Ação de Graças – tinha ouvido o pai de Sophia falar sobre isso, tempos atrás. “Graças para quem? Para o peru não era, com certeza!!” – pensava cheio de raiva e medo.
Mas também podia ser coisa de “marketeiro” que resolveu fazer do peru o bode expiatório das vendas de Natal e por causa disso, nós perus é que vamos pagar o pato?? – ruminava com seus botões. (botões??)

Ari saiu andando pelo sítio. Passou distraído pelo lindo e imponente cavalo tordilho espanhol que estava sendo casqueado, bastante contrariado e reclamando indignado, de suas vicissitudes, suspirando um relincho meio ibérico e sapateando em estilo andaluz.
- Calma D. Juan!! Sua vida é mansa. Nunca vi um cavalo servido em meio a outras iguarias, com botinhas de papel recortadas por algum decorador desgovernado. – falava com ironia – no máximo precisa se esforçar para dar belos passos, exibindo-se.
Passou pelas vacas sonolentas, as galinhas, os porcos. Parece que nenhum deles compartilhava a sua preocupação com o Natal.

* * *

Sophia andava de um lado para o outro dentro da casa. Pegava cobertas, passava com pequenos potes, abria e fechava os armários da cozinha. Mercedes, sua mãe, chamava por ela, ela respondia rápido – Tô brincando de casinha!!!
E continuava na sua lida, com muita dedicação.

Já ia alta a lua, brilhando nos olhos lacrimejantes de Ari, quando as luzes da casa se apagaram. Ari estava diluído em seus pensamentos filosóficos, no momento em que a janela do quarto de Sophia se abriu bem devagarinho. Ele viu os cabelos loiros brilharem a luz do luar e sentiu uma doçura invadir-lhe.
- Ari! Vem cá!! Depressa... – sussurrou ela, entre o farfalhar das folhas da dama-da-noite, que insistia em perfumar a escuridão de verão.
Ari se aproximou, entre desconfiado e ansioso e... záz!!! Sophia o agarrou e levantou-o no ar, fazendo-o pular para dentro do quarto dela, onde o aconchegou num ninho fofo, dentro do armário, pondo ao seu lado um pote com sementes e outro com água.

- Fica bem quietinho aí!! Não faz bagunça, senão a mamãe te acha. Eu preciso de tempo pra pensar. – pediu ela com carinho.

E ele ficou quietinho, embrulhadinho num edredon de penas de ganso – “Pobres gansos...” - pensou – “deve ter doído isso”. E ele sonhou... Sonhou que voava e que havia uma luz. E que tudo era muito mais leve, as coisas aconteciam num piscar do pensamento, não havia dor, nem medos. Ele sabia e sentia coisas diferentes. Do alto de seu vôo viu Sophia deitada em sua caminha e ele, isso mesmo, ele próprio escondido atrás da porta entreaberta do armário. Via e ouvia coisas diferentes e o sonho lhe trouxe uma coragem, um conforto, como se algo mais poderoso o tivesse invadido, tomando-lhe conta. Ari descobriu-se eterno.

* * *

O dia amanheceu, Sophia saiu do quarto, depois de lhe fazer muitas recomendações de comportamento. E ele ficou lá, quieto, acompanhado de seus pensamentos. “Por que não sentia a mesma alegria dos outros perus ao serem escolhidos para o Natal?” – questionava-se. Talvez eles fossem mais heróicos ao encararem seu destino com galhardia (ou seria pura resignação de ignorantes?)
Sophia, em sua inteligência pueril, começou a fazer uma campanha junto à sua mãe, que cuidava com presteza dos afazeres da festa da noite seguinte.

- Mamãe, que que a gente vai comer na janta de Natal? Já pensou que desta vez a gente pode fazer um monte de coisas diferentes? – perguntou de forma displicente
- Como assim “diferente”, filhota? E não é “janta”, é Ceia de Natal – respondeu, automaticamente, batendo muitas claras em neve, para um doce de damascos.
- Ahhh, mãezinha, você cozinha tão bem!!! Pode fazer tanta coisa gostosa... Precisa ser sempre igual?? Não agüento mais comer farofa com coisinhas fritas, arroz com creme e aquelas frutinhas pretas, torta de frango, pernil assado e peru com molho. Todo ano é igual, mãe!! – discursou a pequena menina, na sua estratégia.
- Como assim “todo ano é igual”, Sophia? – perguntou, surpresa – Você só tem seis anos. E com certeza só se lembra do Natal do ano passado, se lembrar – completou rindo.

- Mas eu lembro bastante – respondeu a menina, um pouco aturdida, sem, no entanto, se deixar flagrar – e sei muito bem do que que eu não gosto.
- E do que não gosta, Sophia? – perguntou uma mãe amorosa
- Não gosto de peru!!! Aliás, eu odeio peru, mamãe. – respondeu resoluta.

Olhando pela janela, sentiu os olhos arderem com as lágrimas de fogo, quando viu Gonçalo, o capataz, chegar carregando um garrafão de aguardente. Sabia que estava apostando alto, mas tinha que tentar de tudo.

- Faz um peixe na brasa, mamãe!!! - adiantou-se - O Gonçalo pesca muito bem, eu nunca pego nada e ele enche o cesto dele de tilápia. Pode trazer um peixe bem grande do rio!!
- Sophia, eu não estou entendendo...
- Dona Mercedes – cortou-a Gonçalo agitado – o peru sumiu!!! O peru manquitola, que a senhora mandou embebedar, desapareceu!! Já revirei o terreiro todo...
Sophia aproveitou e desapareceu da frente dos dois, pulverizando-se na onda de assombro e dúvida que invadiu a mãe e o capataz. E foi ficar bem quieta no quarto, cuidando de Ari, que estava cada vez mais desatinado.

* * *

A mãe entrou no quarto com aquele olhar misterioso que só as mães sabem ter. Estava séria, olhando para a menina e tinha nas mãos um recorte de revista amassado. Sentou-se na cama e abraçou a pequena Sophia, que se desmanchou em lágrimas, implorando pela vida do indefeso amigo. Olhando firme para a menina disse que ia levar Aristóteles - Pois o destino de cada um deve cumprir-se em seu tempo – murmurou. Dizendo isso, levantou-se resoluta, pegou a ave de dentro do armário, até com um certo carinho, teria percebido Sophia, se os olhos não estivessem tão marejados, entregando-a para o capataz, que esperava com o garrafão de cachaça.
- Mamãe!! Mamãe!! Não faz isso!! Ele é o meu melhor amigo... – implorou baixinho, enquanto ouvia a porta se fechar.
A menina chorou muito antes de adormecer um sono úmido, pedindo ao Papai Noel que lhe concedesse um único desejo de Natal.

* * *

Sophia chegou na casa da avó, de vestido e sapatos novos, cabelos com presilhas de strass, e docemente perfumada . Estava toda linda, não fosse pelos olhos ainda vermelhos, de horas seguidas de um pranto silencioso e cheio de saudade.
As luzinhas de Natal presas em volta do arco da sala brilhavam em muitas cores. As bolas douradas refletiam uma imagem sua distorcida e bem mais gorducha do que a real. Sophia gostou de ver o rosto ovalado, seus cabelos numa moldura menor e a pele num tom estranho de ouro velho.
Mercedes entrou na sala, cantando uma alegre música espanhola cadenciada por agudas castanholas, que tocava na vitrola do pai, como em todos os Natais, desde que se lembrava. Trazia uma travessa com um grande peixe assado, todo adornado com batatas e brócolis. Olhou para Sophia e gritou lá pra dentro:
- Mãe!!! Traz o peru, que já estão todos aqui!!!
Sophia fechou os olhos, como que para fugir da cena cruel que a esperava, duas lágrimas quentes rolaram pela face rosada e do fundo do escuro de suas pálpebras ouviu ao longe a voz da avó Lolita:
- Vem! Vem, logo! Corre! A festa já vai começar!!!
Por trás de uma Mercedes sorridente, laço de fita amarrado no pescoço, um gorrinho de Papai Noel na cabeça e cheio de uma empáfia dos que estão sossegados e felizes, vinha mancando, correndo rapidinho para dentro da sala, um peru curioso alegre, curtindo uma linda noite de Natal, junto àquela alegre família espanhola que ia jantar peixe na brasa, castanhas assadas, arroz simples, gelatina rosa, frutas e sorvete.
Jantar, não! Ceiar...

- O destino de cada um deve cumprir-se e o destino do Aristóteles não é ser um Peru de Natal – disse a mãe sorrindo para Sophia.
- Obrigada Papai Noel! - lembrou-se de sussurrar abraçada à querida ave que sorria, realmente sorria.

CRISTINA RUIZ

CRISTINA RUIZ
Cristina Hernandez Ruiz Trevisan é natural de São Paulo, mas não esconde a forte influência ibérica em sua arte e em seu temperamento irrequieto. Desde idade muito tenra apaixonou-se pela leitura e pelo desenho, tornando-se artista plástica e designer de interiores. Nos últimos anos, tem dado vazão à sua força criativa por meio das letras, usando-as tal como usa as cores, em vigorosas pinceladas que nos falam à alma.